
Recentemente, lendo o excelente artigo A poesia como exercício para a imaginação de Maria Esther Maciel (Revista Entrelivros/Entreclássicos - Jorge Luis Borges. São Paulo: Duetto Editorial, 2009, v.10, p.49) topei com o seguinte esclarecimento: Na conferência "A cegueira", proferida em 1977, em Buenos Aires, e posteriormente incluída no livro "Sete Noites", Jorge Luis Borges conta que, quando criança, gostava de se colocar diante da jaula de um tigre no zoológico de Palermo para contemplar o dourado e o negro do pelo do animal. Revela que, desde então, passou a ter um explícito fascínio pela cor amarela, a qual nunca o abandonaria, mesmo na cegueira. Como ele explica, o amarelo foi - ao lado do verde e do azul - uma das raras cores que continuou a ver depois de ter perdido quase toda a visão. Essa associação entre o amarelo, a cegueira e a imagem do tigre já havia sido explorada pelo escritor argentino alguns anos antes no poema "O ouro dos tigres", que encerra o livro de mesmo título, publicado em 1972. Nele, assumindo um "eu" reflexivo e memorioso, Borges mostra como o "poderoso tigre de Bengala" de sua infância, desdobrado em outros tigres "do mito e da épica", acabou por se eternizar para ele como uma cor. Nas palavra do poeta: "Com os anos foram me deixando / As outras belas cores / E agora só me restam / A vaga luz, a inextricável sombra / E o ouro do princípio".
Por uma maravilhosa coincidência o desenho infantil de Borges ilustrava o ensaio. Era o estímulo que faltava. Assumi o risco e o resultado aí está: dentro da biblioteca (infinita?) um tigre (eterno?) observa o velho escritor, quase completamente cego, repetindo o desenho da infância; uma luz amarelada ilumina a cena.